A Garganta da Serpente
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O Vale das Paineiras

(Alberto Metello Neves)

Em uma região do interior mineiro, havia o Vale das Paineiras. Cidade pequena com aproximadamente dez mil habitantes e distante 200 km da capital. Esta cidade recebeu este nome devido à quantidade imensa de Paineiras lá existente e a cidade era localizada em um vale mesmo.

Possuía uma Igreja e um antigo coreto bem no meio da praça central onde aconteciam as retretas com a banda local, uma pequena farmácia e um empório. No final da rua principal havia o prédio da Prefeitura, o posto de saúde e uma escola que atendia a 600 alunos em três turnos. Este é o Vale das Paineiras.

A economia da região era formada por uma agricultura de subsistência e uma precária pecuária de leite.

Por um golpe do destino, certo dia, Martins ficou viúvo. Possuía três filhas.

Maria das Graças, a mais velha, pouco bonita e muito má, era gananciosa e só desejava tudo para ela, não colaborava em nada com as irmãs. A segunda filha, a Matilde, era muito parecida com Maria das Graças. O seu caráter era bastante semelhante.

Ambas, por serem as mais velhas, não aceitavam cuidar da casa, pois diziam que não eram empregadas de ninguém. Não trabalhavam e passavam o dia a especular a vida dos vizinhos. Martins, ficava muito triste com o comportamento das filhas, mas, nada dizia, mesmo porque de não iria adiantar falar qualquer coisa.

A terceira filha, Luciana, era muito diferente. Muito bonita, prendada, zelava pelo seu pai e suas irmãs, apesar delas alimentarem por ela, um terrível ódio. Luciana era a responsável pela casa, pela alimentação, pelas roupas, enfim, era a verdadeira dona de casa apesar da sua pouca idade.

Martins precisou ir à Capital, fazer compras, pedindo a Luciana que tomasse conta dos negócios até a sua volta.

Nessa mesma noite embarcou disposto a fazer bons negócios e melhorar as condições do seu empório.

Chamou as filhas e lhes disse: vou à Capital fazer compras. Gostaria de trazer para cada uma, um presente.

Maria das Graças pediu ao pai que lhe comprasse um enxoval cor de rosa, completo.

A Matilde pediu um belo cordão com um medalhão em ouro.

Quando chegou a vez da Luciana, esta pediu que se fosse possível, lhe trouxesse um botão de rosa vermelho. Era tudo o que queria.

O pai despediu-se das filhas e foi para a estação, o trem já estava quase para sair.

Na noite seguinte chegou à Capital. Procurou um hotel simples próximo à estação, indo jantar a seguir.

Deu umas voltas pelas imediações do hotel e foi dormir, pois o dia seria de bastante trabalho.

Levantou-se cedo, tomou o seu desjejum no hotel e foi para a zona atacadista da cidade, fazer as suas compras. Andou bastante pesquisando os preços e a qualidade dos produtos que iria adquirir. Aproveitou, comprou os presentes para as filhas. Encontrou tudo. As compras para o empório, ele as fez e estava saindo tudo muito bem. Só faltava mesmo era o presente da Luciana que ele queria deixar para mais tarde, para o tempo não prejudicar o botão de rosa.

Ao sair da casa onde fez as suas últimas compras, ocorreu um incidente.

Martins estava carregando seus embrulhos e não observou ao atravessar a rua, um veículo que passava, o qual tocou nos pacotes, derrubando-o. Imediatamente o condutor parou e foi prestar socorro. Levantou-o verificou que nada havia acontecido. Fora apenas um susto.

O motorista, que era o proprietário do veículo deu-lhe o seu cartão de visitas e se prontificou a cuidar do Martins enquanto ele estivesse na Capital.

O seu nome era Dr. Paulo Seixas, advogado e residia em uma bela mansão num bairro nobre da cidade. Colocou-o no seu veículo, foram até o hotel onde Martins estava hospedado, pagou as suas contas e o levou para casa.

Era solteiro, residindo com os seus pais. O pai era Médico e a mãe Professora, ambos já aposentados, porém, viviam dentro de um padrão de vida muito elevado. Paulo já pensava em constituir a sua própria família, o que tinha o apoio dos pais. Mas, ainda não havia encontrado a sua companheira ideal. Mandou arrumar o quarto de hóspedes e o Martins ficou com eles.

Conversando durante o cafezinho, Martins contou à família toda a sua vida, como ficou viúvo, seus negócios lá no Vale e principalmente de suas filhas. Como já era sexta-feira, o Paulo resolveu levá-lo para sua casa no Vale e assim, descansar o fim de semana, além de conhecer as filhas. A hora já estava avançada e foram dormir. Levantaram-se por volta das seis horas, tomaram um lauto desjejum e saíram. Passando por uma floricultura, Paulo mandou preparar um lindo buquê de rosas vermelhas. Almoçaram em um restaurante conhecido, seguindo para o Vale das Paineiras, chegando às quatro horas da tarde. A surpresa foi grande entre as filhas do Martins, pois ninguém esperava uma chegada tão pomposa como aquela.

Foram recebidos pela Maria das Graças e Matilde, que se encantaram com o Paulo e com os presentes que haviam recebido do pai.

O Martins perguntou pela Luciana e lhe disseram que a mesma se encontrava no empório. Deixaram os presentes e foram para lá.

Como Luciana estava sozinha no empório, assustou-se, quando viu o pai chegar com um desconhecido, que trazia às mãos, um lindo buquê de rosas vermelhas, que era para ela e que após as apresentações, lhe foi entregue.

Luciana recebeu o presente e muito satisfeita foi correndo buscar uma jarra com água para colocar as flores. Eram lindas e ainda estavam, bem conservadas, apesar da longa viagem.

Enquanto isto, o seu pai ficou conversando com o Paulo. Luciana gostou muito das flores e nunca esperou um gesto de "cavalheiro" tão marcante como aquele.

Martins deixou o casal conversando e foi arrumar as prateleiras. Luciana estava sonhando com aqueles momentos tão especiais para ela, o que era bem merecido.

O pai como era temente a Deus, sempre orava pedindo, que se fosse permitido por "ELE", Luciana iria se casar. O moço era bom, educado e tinha um tratamento todo respeitoso por sua filha, o que poderia se traduzir em um bom e futuro esposo. Este era o seu sonho e o da Luciana também. Esta pediu licença e foi preparar um jantar para eles.

No jantar, Paulo convidou - a para uma visita à sua residência conhecer os seus pais, pois ele desejava que este romance fosse realmente sério. Havia gostado da Luciana e pretendia, após o conhecimento dos pais, pedir-lhe a mão. Esta aceitou de pronto e o seu pai a iria acompanhar. As irmãs Maria das Graças e Matilde ficariam tomando conta da casa e do empório. Acharam a distância muito grande e a viagem, com certeza seria enfadonha.

Pela manhã, saíram os três com destino à Capital. Para Luciana, aquele era um "Conto de Fadas", que estava se materializando e a sua felicidade estava próxima. Era o que ambos desejavam. Uma bela família viria complementar a vida do casal. Antes de sair, passaram pela Igreja e Luciana pediu a Santo Antonio que lhe permitisse, sob a vontade de Deus, que o seu sonho se realizasse.

Seguiram viagem.

Ao chegar foram recebidos pelo mordomo que após cumprimentá-los, retirou todas as malas do veículo, levando-as para dentro.

Paulo acompanhou o casal até a sala de estar, onde a sua mãe os esperava. Recebeu-os com muita amabilidade e parece que desde o primeiro instante, simpatizou-se com a Luciana.

A anfitriã fez questão dela própria mostrar as dependências da mansão à visitante. Depois que andaram bastante pelo interior da casa, foram ao jardim, que era simplesmente maravilhoso, com piscina e viveiros de pássaros exóticos. Para Luciana, aquele era o céu na terra. Era o sonho de uma menina simples e interiorana, mas que apresentava qualidades morais excepcionais e uma formação muito forte, apesar de sua pouca escolaridade.

Por outro lado, o Martins passeava e conversava muito com o Paulo. Neste momento, chega o pai, que ficou contentíssimo em conhecer tão honrada família, pois o Paulo já havia feito uma descrição minuciosa de todos. Conversaram bastante, a Luciana já estava mais à vontade e desinibida, o que tornava o ambiente mais cordial e à vontade.

Saíram, e foram todos mostrar a cidade ao casal, visando principalmente os seus pontos mais pitorescos. Foram ao Shopping Center e o Paulo resolveu presentear a Luciana com um belo vestido, com o qual deveriam passear a noite.

Martins estava em outro mundo, dentro da sua modéstia e simplicidade. Muito satisfeito, ao conversar com o pai do Paulo observou que ele era um homem íntegro e de princípios morais muito sólidos.

Foram jantar em um restaurante famoso da Capital. Todos alegres e felizes.

Em certo momento, Paulo pediu aos demais, um silêncio rápido, pois tinha algo a falar. Todos ficaram atônitos com aquele pedido e logo a seguir, Paulo disse, dirigindo-se ao Martins: "Senhor Martins, neste momento, tenho a honra de pedir a mão de sua filha Luciana em casamento". Martins assustado, pois não esperava tal pedido, respondeu-lhe que dependia só dela, pois de sua parte, concordava.

Luciana, então criou coragem e respondeu que "aceitava". Foi uma festa.

Paulo chamou o garçom e pediu o champanhe mais famoso que a Casa possuía, pois a ocasião era toda especial.

Fizeram um brinde e Paulo disse que no dia seguinte, iria providenciar as alianças e determinar a data do enlace. Terminada a festa, todos voltaram para casa, tomaram um cafezinho e conversaram até altas horas da noite.

Estavam felizes. Foram repousar, pois o dia havia sido exaustivo e muito emotivo.

No dia seguinte, Paulo se levantou e Luciana já se encontrava toda arrumada para sair, pois tinham que providenciar as alianças.

Foram a uma famosa casa de joias, viram vários modelos e optaram por um que era do agrado dos dois. Aproveitando a medida do dedo da Luciana, Paulo comprou também, sem que ela notasse, um lindo anel de brilhantes, que seria o presente de noivado. Ao chegar em casa, todos reunidos, houve a cerimônia da entrega das alianças e para completar, o Paulo deu-lhe de presente, também, o anel de brilhantes. O almoço foi pomposo, regado a vinho Português e na oportunidade, marcaram o casamento para trinta dias após, cerimônia que seria oficializada pelo Pároco da cidade da Luciana. Iriam até lá, convidá-lo.

À tarde, partiram para o Vale das Paineiras todos felizes. Martins nem acreditava no que estava acontecendo. Luciana, esta nem se fala, pois o seu sonho estava já a meio caminho e o Paulo, por realizar o que ele mais ansiava.Ao chegar, a alegria era geral inclusive da Maria das Graças e Matilde.

Procuraram o Pároco e conversaram bastante com ele que aceitou o convite para a cerimônia do casamento na Igreja da Capital. O Arcebispo já havia permitido, por ser um caso especial.

Luciana, que já vinha preparando o enxoval, tinha quase tudo pronto. Na cidade, a notícia se espalhou com uma velocidade muito grande. A Luciana iria se casar e muito bem. Era o comentário geral.

O tempo era curto. Voltaram à Capital para terminar de arrumar o enxoval e preparar o vestido de noiva.

A mãe de Paulo levou a Luciana a um estilista que desenhou e confeccionou um vestido ao gosto dela. Enfim, dentro de vinte e cinco dias já estava tudo pronto.

Paulo adquiriu uma casa em outro bairro nobre da Capital, fez algumas reformas e ficou como Luciana desejava. Levou para lá duas criadas que iriam ajudar a Luciana. Os convites já estavam prontos e foram distribuídos a tempo. A festa seria realizada em um clube, pois seria mais prático.

Paulo foi ao seu escritório de advocacia, comunicou aos colegas e mandou fazer a distribuição dos convites. Todos os seus colegas e funcionários ficaram radiantes com a ideia. Agora, os donos do escritório, todos casados.

No Vale das Paineiras, o Martins bastante nervoso, pois era a sua primeira filha que iria se casar. As suas filhas Maria das Graças e Matilde estavam se preparando para o grande dia. O mais interessante, é que aquele ódio que elas alimentavam contra a Luciana, desapareceu. Alguma chama benfazeja deve ter iluminado àqueles corações maldosos e mostrado a elas, que o caminho não era por aí. A alegria era tão grande, que passaram a ajudar a Luciana. Coisas que acontecem.

Chegou o grande dia. Martins e as filhas ficaram hospedados em casa dos pais do Paulo. Na hora certa, o carro veio buscá-los para a cerimônia na Igreja. O Paulo chegou com a sua mãe e ocupou o seu lugar próximo ao altar. Ficaram aguardando a noiva. O atraso foi só de trinta minutos. A Igreja estava arranjada com muito esmero e repleta de convidados e não convidados, que sempre estão presentes.

Havia um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas amadores, que no final mais se atrapalhavam, do que propriamente trabalhavam.

Mas, tudo ia correndo bem, quando o órgão principal da Matriz soou as primeiras notas da Ave Maria de Gounot, o que causou uma impressão celestial. A noiva vai saindo do veículo, linda e preparada com muito gosto de braços dados com o seu pai. Estava deslumbrante aos olhos dos convidados. Estava muito feliz.

Foi acontecendo o ritual.Terminada a cerimônia na Igreja Matriz, todos se encaminharam para o clube, onde haveria os cumprimentos aos noivos, pais, padrinhos e madrinhas. O clube também estava muito bem decorado. O casamento foi uma autêntica pompa. Tudo aconteceu como haviam planejado. Após o cerimonial de costume, champanhe, o bolo de noiva, a valsa, o casal Luciana e Paulo se despediram sutilmente, saíram e foram para casa para mudar a roupa, pois teriam que estar brevemente no aeroporto para a sua viagem de núpcias. Estava programada uma viagem de vinte dias pela Europa: Portugal, Espanha, França e Itália, quando retornariam ao Brasil.

Martins foi com as filhas para a mansão dos pais de Paulo e no dia seguinte, iriam para o Vale das Paineiras. Todos muito felizes. Martins foi à Matriz agradecer a grande graça recebida, pois havia prometido à Deus, uma missa em agradecimento às suas preces que haviam sido ouvidas. No Vale das Paineiras, tudo voltou ao normal. Martins foi para o empório, desta vez ajudado pela Maria das Graças. A sua irmã assumiu as obrigações do lar, em lugar da Luciana. E assim, tudo terminou bem.

As irmãs verificaram que a prática do bem é sempre melhor do que o ciúme, o ódio e a maldade.

A bondade da Luciana foi recompensada e serviu como exemplo para as irmãs. Elas se modificaram para melhor.

Só o trabalho e os bons procedimentos dignificariam a vida das irmãs em lugar do ócio e do retalhamento da vida alheia.

(19/08/2001)

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