A Garganta da Serpente
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O eremita

(Alberto Metello Neves)

Numa bela manhã ensolarada e quente, peguei uma carona em uma pick-up que vinha passando pela estrada poeirenta Distante cinco quilômetros da cidade, com uma mochila nas costas, onde o suor caía em bicas e com uma vontade feroz de tomar um copo d´água, prosseguia a minha caminhada.

Subir a montanha, onde nem as trilhas existiam e as pedras rolavam, talvez querendo impedir de consumar o meu intento. A cada passo, a montanha parecia crescer, dificultando a tão esperada escalada.Ficar o mais distante possível da cidade e viver em uma cabana, solitário, com os meus pensamentos e minhas recordações do passado, tentando novamente voltar a ser um menino, mesmo que essa intenção pueril, fosse classificada pelos habitantes da cidade vizinha, como a de um psicopata.

As nuvens ficando cada vez mais próximas a medida que mesmo cambaleando , com arranhões por todo o corpo e hematomas localizados pelos escorregões nas pedras afiadas e cortantes, o desejo de continuar era uma verdade. Queria chegar ao topo daquela montanha desafiadora. Durante todo o dia esta luta insana continuava, até que a noite se aproximou. Teria que galgar a todo o custo as trilhas que ia fazendo com um facão, abrindo os caminhos que iriam me permitir viver, sem qualquer interferência, de quem quer que fosse.

Parava, para observar o que acontecia no sopé da montanha.

A cidade estava tão distante que parecia uma montagem de presépio. Conseguia observar um pequeno fio d água, que em outras dimensões seria um rio. Barulho, só o de algum bichinho correndo pela mata ou alguma ave a anunciar a presença de um intruso que descaradamente invadia o sacro ambiente da floresta, com todas as suas belezas, como pequenos filetes de água gelada e temperatura amena, apesar das escarpas a produzir pequenas machucaduras. Era o preço da invasão. A natureza,se defendia.

Continuei a subida, até que cheguei a uma clareira, onde havia uma pequena cabana. Outrora, na minha infância, era um refúgio onde me escondia de meu pai, quando ele estava com o seu satânico mau humor, ansioso para experimentar o seu chicote novo, em minhas costas. Com ou sem motivos, este fato acontecia. Marcou-me com raízes profundas.

Era noite. Entrei na cabana e vi um belo morcego preto. Não era de se esperar outra visita, aliás, a visita era eu. Ele estava em casa, até que acendi o lampião que havia levado em minha mochila. Estava preparado para viver naquele ambiente hostil, desconfortável e por quanto tempo, era uma pergunta sem resposta. Talvez, até o final de meus dias. Só Deus sabia. Era um desafio, mas que não queria competir com ninguém. Eu não mesmo, era companhia. Ali naquele santuário, apenas eu e minhas neuroses.

A fome estava se aproximando. Eu havia trazido algum alimento que me sustentaria por um certo tempo. Depois, só a natureza iria me patrocinar e essa ideia me era simpática. Viver na natureza e da natureza. Era poético.

Entrei na cabana, com o lauto conforto de minha solidão,preparei o leito de saco de viagem e tentei pregar os olhos. Lá pelas tantas, após um extenso retrospecto do meu dia, consegui adormecer, que a estas alturas, eu já me encontrava desmaiado.



DIA SEGUINTE

Não tinha mais noção das horas, quando uma tênue claridade penetrou "em meus aposentos" através de uma fresta que funcionava como janela, anunciando o amanhecer. O ambiente estava como eu desejava, sem qualquer tipo de companhia, a não ser um esbelto rato, que fazia avenida pela minha cozinha improvisada.Porém, ficou frustrado, pois nada encontrou, a não ser latas de comidas preparadas, que eu ainda mantinha como estoque de provisão e cujo fim, certamente se aproximava.

Então, veio-me uma brilhante e óbvia ideia: vou caçar e conseguir alguma carne, que após salgada, deverá me abastecer por algum tempo.

Verifiquei a minha arma, um revolver 38, com algumas balas e outras poucas de reserva, deveriam me sustentar pelo período necessário do meu compromisso com o meu ego.Tenho que resgatar a figura de criança que me perturba até hoje. Vou conseguir.

Sai para dar uma volta ao redor da cabana e avistei um pequeno gamo a me espreitar e qual não foi o seu susto, que disparou a correr mato à dentro.Perdi um belo churrasco, pensei, porém, outras futuras vítimas deverão aparecer. O local era propício à fauna de pequeno porte e isso permitiria saciar a minha fome. Bem próximo à clareira onde me encontrava, uma bela nascente de água permitiu encher uma lata com água para beber. Ao mesmo tempo me senti atraído a tomar um relaxante banho e lavar a barba que já estava se fechando no rosto. Os meus cabelos também já davam mostras que a natureza estava cuidando de mim. Eu me encontrava como esperava e desejava.

A todo o momento,vinham-me à cabeça, as cenas que ali aconteciam quando criança, as quais eu pretendia sepultar.Iria conseguir, disso tinha a certeza.

Continuei o meu "passeio matinal", quando avistei um preá, que me espreitava atônito, pois eu era uma companhia desconhecida em seu habitat.

De qualquer forma, era um lauto almoço para quem se encontrava naquele exílio desejado. Tirei a arma e com muita precisão, consegui transforma-lo em um belo churrasco.

Valeu. A refeição estava garantida e com muito apetite, representava um "caviar".

Após o almoço, fui tirar uma sesta. O sono chegou e me fez dormir até pelas tantas..

Ao acordar, fui passear pelas encostas, descendo até a mina d´água, onde sorvi um copo, apenas calculado pelas quantidades de mãos que juntas formavam uma cuia.

Apesar dessa vida, distraída como estava, retornavam a lembrança de todos os fatos que me marcaram na infância, os quais tentava faze-los desaparecer para que pudesse, com o enterro dos mesmos, tornar-me à vida adulta, sem ser massacrado por aqueles pesadelos que me dilaceravam a mente.

Tomei a decisão de me retornar aos locais onde um dia havia estado, em fuga, devido aos maus tratos que me pai me impunha.

Dentro desses pensamentos, saí a andar pela região, até que um anu,com um voo rasante, bateu a sua cabeça em um tronco, caindo já sem vida pelo chão, espalhando uma cobertura de sangue.

Peguei a ave e verifiquei que a vida estava no final e dos possíveis pesadelos, ela já estava liberta. Era o que eu desejava. Ficar livre e poder retornar à minha vida de adulto. Mas, tinha esperança que em breve, eu também estaria na plenitude de minha liberdade.

Porém, não havia ainda cumprido o meu objetivo.



O DESFECHO

Quando ainda me encontrava às voltas com as minhas reflexões, senti que eu estava sendo espionado. Mas, era difícil que isto estivesse ocorrendo, devido às condições ambientais de isolamento. Nada havia por lá que pudesse indicar um morador próximo, pois nas condições do local onde me encontrava, apenas eu estaria sobrevivendo, embora com muita precariedade. Todas as noites os pesadelos se faziam presentes. Era como se eu estivesse vivendo outra vez, as minhas condições da infância.

O meu tormento era muito grande e eu esperava que dentro de curto tempo, eu completaria o meu plano.

As barbas e os cabelos já estavam avantajados e com muita razão, pois já havia se passado dois meses e eu ainda lutava para me libertar.

Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com uma figura humana, que me espreitava por traz de um rochedo. Procurei observar bem e tive a impressão de ver um ancião, mudo e esperto, talvez o meu pai a me azucrinar novamente. Não consegui reconhece-lo. Sai atrás dele e não consegui encontrá-lo.

Seria real? - pensei, ou foi apenas a minha imaginação que se encontrava muito fértil devido a uma infância mal terminada.

Não poderia ser real, pensei. Neste lugar?

Seria uma autêntica heresia alguém tentar tirar a minha fabricada paz, doentia e revoltada. Não poderia descer a montanha, nestas condições. O meu sacrifício estava incompleto.

Enquanto a noite não chegava, resolvi preparar algum alimento, que nestas alturas, já se encontravam bastante escassos.

O cansaço me permitiu dormir logo em seguida. O pesadelo retornou. Não me abandonava, mas eu não desistia do meu objetivo.

Tarde da noite, escutei um ruído que me fez acordar. Vi uma figura com o formato humano, o qual entrou na cabana e nada falou. Sem quaisquer explicações, andou pela cabana, espionando, como se fora um antigo sobrevivente daquele local. Era ele? Não sei.

Eu mais uma vez, não consegui saber se o personagem era real ou imaginário. Saquei da minha arma e atirei. A figura desapareceu.

Eu não poderia ter errado. O alvo estava próximo e eu atirava bem.

Levantei-me e sai a andar próximo à cabana. Só precisava desfechar a minha situação de infância mal vivida, para poder, com liberdade, descer as montanhas.

Não consegui. No meu jogo estava faltando apenas uma pedra. Seria o cheque-mate.

Dando voltas perto da cabana, fitei-a bem, como se fora a última noite ali, naquele ambiente hostil, onde o meu asseio já estava esquecido há muito tempo e as lembranças continuavam a me perseguir.

Fui até a mina, tomei o meu último gole de água e conclui que só havia uma saída para a minha libertação.

Decidi.

Fui até à cabana, totalmente transtornado, as lembranças estavam cada vez mais fortes em minha cabeça, sentei-me no banquinho improvisado de galhos de árvore, saquei da minha arma e gritei: "enfim livre" e acionei o gatilho contra a minha cabeça.

Acabaram-se as lembranças. Estou livre.

Na cidade, toda a população estava preocupada com a minha ausência por tanto tempo e sem notícias. Foi organizada uma equipe de busca e como todos sabiam que aquelas montanhas eram o meu refúgio quando criança,partiu para lá.

E me encontraram. Um homem livre das suas mazelas neurais da sua infância.

Era um adulto livre.

(26/04/2005)

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