A Garganta da Serpente
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Transe

(Arlindo Gonçalves Marrão Junior)

“Deixemos, pois, de nos julgar uns aos outros; antes, cuidai em não pôr um tropeço diante de vosso irmão... Sei, estou convencido... nenhuma coisa é impura em si mesma; somente o é para quem a considera impura.”
(Rom 14, 13-14)

Domingo de manhã. Eva dirigia-se à estação Parque dom Pedro do metrô. Levava sua filha de poucos meses, Aline, bem agasalhada e aconchegada ao corpo para aquecê-la um pouco mais, atitude que parecia inútil diante do rigor daquele início de inverno.

Notou as poucas pessoas na rua, fato que lhe agradou bastante; sair em uma manhã como aquela não havia sido uma coincidência. As coisas corriam conforme planejado. Não pensou muito, o lento ritmo daquela manhã parecia retardar a sua capacidade de raciocínio.

Uma vez dentro do metrô, sentou-se e permaneceu quieta. Aos poucos, um torpor proporcionado pela mudança de temperatura introduziu-a em uma espécie de transe. Talvez não fosse a monotonia e o relativo calor do local, mas sim a insônia da noite anterior, ou quem sabe os dias difíceis por que estava passando.

Um homem, sentado ao seu lado, tentava sintonizar uma estação em um pequeno rádio “...a derrota do Corinthians ontem parece ser a grande zebra deste campeonato...” Aumentou o volume para combater o chiado “... A temporada de jogos parece mesmo prometer fortes emoções...” Inútil. Serviu apenas para acordar Aline que começou a chorar.

Na estação Anhangabaú, o estado de prostração foi interrompido pelo choro da filha. Surpreendida, passou a balançá-la por algum tempo na esperança de acalmá-la. Foi ficando um pouco tensa, não pelo choro em si, mas pelos poucos passageiros ao redor. Eles olhavam-na de uma forma estranha, parecendo reprová-la. Não sabia quanto tempo havia passado desde o começo do lamento da menina; nada que fazia melhorava a situação. O que era uma leve tensão começou a incomodá-la cada vez mais. Passou a fantasiar coisas, a achar que Aline tentava denunciá-la às pessoas.

Estranhas sensações apoderavam-se dela. Misturado ao barulho do trem e ao choro, Eva pensou ouvir um murmúrio que aumentava e a levava a um imenso terror. As palavras, sem sentido no começo, foram tomando forma...acerte onde...

Assustada, cerrou os olhos na tentativa de fugir do que ouvia, mas isso fez com que os sons ficassem ainda mais claros...continua,...amônia.

Chegando à estação Marechal, desceu e andou depressa. Poucos metros à frente, achou um bar - Deodoro Lanches - e decidiu parar para comprar cigarros. Sorvendo a fumaça, acalmou-se mas não ficou ali por muito tempo; teve uma leve suspeita de que os olhares reprovadores das pessoas se voltariam contra ela, da mesma forma que no metrô.

Seguiu para o Minhocão e subiu uma rampa até a parte escolhida. A distância era curta, nada difícil, mas ficou ofegante rapidamente. Então, viu algo curioso que lhe chamou a atenção: um outdoor no qual se via um desenho, uma espécie de bichinho, talvez um porquinho ou algo parecido; ao lado desse anúncio, um outro cheio de textos. Achou que era a chamada de alguma revista. Confirmou, depois, que era uma publicação de finanças familiares ou algo parecido. Não deu mais importância e, sem perda de tempo, prosseguiu.

Tudo estava vazio, como imaginara. Seguiu caminhando em direção à mureta de proteção. Foi quando uma dor aguda a surpreendeu, tomando suas costas rapidamente e se espalhando por todo o seu corpo. Pensou que talvez fossem as surras que levara...Vai, sua puta, diz! Diz que qué apanhá. Fala, vagabunda, desembucha aí, ô vaca imunda. Admite, seu lixo, admite que só te pagamos porque você queria apanhá...; o trabalho ou o remédio que havia decidido parar de tomar...A senhora não pode se entregar dessa forma, é fácil conseguir remédios hoje em dia...

Apesar de sofrida, a dor serviu para fazer com que andasse mais devagar. Ao atingir o ponto desejado, cansada, sentou-se com a criança.

Mais recordações amargas: a morte do pai; a fuga de casa...Põe o batonzinho pra mim, Eva... fica igual à bonequinha que teu pai te deu...; a vinda de Amparo para São Paulo; as drogas; a prostituição; a contaminação; a gravidez.

Sentiu um gosto ruim e indefinido que parecia subir das profundezas do seu corpo para se instalar em sua boca.

Lembranças numa corrente confusa: o aborto aconselhado pelas amigas e de pronto descartado...Melhor abortar, a gente conhece um jeito fácil de fazer isso...; o nascimento da menina há alguns meses; a negação ao tratamento mesmo sabendo que conseguiria os remédios...Não deixe o desânimo baixar sua resistência, é nessas horas que o vírus ataca mais...; o arrependimento; o medo; as alucinações e agora aquele gosto medonho. Sim, o gosto, uma horrenda sensação, tão ruim que Eva seria capaz de exalá-lo e senti-lo no ar ao seu redor.

Ficou ali imóvel e mais uma vez o transe reiniciou. Aos poucos, começou a ouvir grunhidos que foram ficando cada vez mais definidos. Pareciam vindos de alguém que a chamava, mais perceptíveis a cada momento e claros ao ponto de Eva poder identificar cada palavra. Mas, de repente, eles cessaram e ela não ouviu mais nada além do barulho dos carros que passavam na Amaral Gurgel - abaixo do Minhocão -; no entanto, o que havia distinguido já era o suficiente. Começou, então, a conversar com a filha, mesmo sabendo que ela ainda não podia falar. Hesitou. Passou a imaginar o diálogo. A fala da filha soava estranhamente... parecia muito errada:

- Eu sinto muito, filha.

- Por quê?

- Por tudo que você não entende...

- Por que você vai fazê isso, mãe?

- Para que seu sofrimento não seja maior depois, Aline.

- Você vai senti dor também?

- Sim, querida, mas só por mais algum tempo... Desculpe, você ainda é nova para saber...

- E o chão, vai doê muito?

- Vai... mas será só uma batida, filha, nada comparado ao que você vai sentir se passar de hoje.

- A gente vai se vê de novo?

- Não.

Eva ergueu-se e olhou em linha reta para os prédios e para muita, muita poluição visual. Na sequência, abaixou mecanicamente a cabeça e prendeu a respiração.

O arremesso, enfim, foi fácil e rápido, mas em uma fração de segundo, ela, sem querer, mais uma vez vislumbrou os dois outdoors - o do tal bichinho e o outro da maldita revista de finanças. Não soube como, mas no curto espaço de tempo conseguiu ler as palavras lá escritas; jamais pensaria que um simples anúncio poderia apavorá-la daquela forma: Acerte onde seu pai errou.

Saiu dali, rapidamente e assustada. Continuou ouvindo vozes que diziam coisas absurdas...como pôde alguém escrever uma coisa dessas?... Balançou a cabeça freneticamente...e ainda por cima em um outdoor. Será que ninguém pensou que você estaria aqui hoje?

Os sons foram diminuindo aos poucos até sumirem. Fugir dali foi fácil, afinal não havia ninguém. Embaixo, algumas pessoas já se aglomeravam ao redor do corpo. Virou as costas para elas e seguiu seu caminho. Chamaram o Resgate, mas já era tarde; em outro sentido, também já era tarde para Eva. Aline talvez fosse enterrada como indigente, talvez descobrissem tudo, enfim, nada mais poderia ser feito. Eva só pensava em fugir dali o mais rápido possível e voltar para casa.

Caminhou por uma rua onde se via um grande muro, imundo e totalmente tomado por cartazes. As letras impressas pareciam saltar e embaralhar sua visão. Conforme andava, um turbilhão de palavras num crescente insuportável e sufocante a aterrorizava. Mais uma vez, Eva passou a sentir as dores e aquele gosto horrível. Tossiu repetidamente. Escorou-se no muro. A nojenta sensação, de repente, sumiu. Afastou-se lentamente e olhou horrorizada para a parede. Ali, tomada por tolas fantasias ou pelo pavor da atrocidade cometida, ficou parada, lendo inúmeras vezes o que estava escrito no anúncio de uma peça de teatro, lendo... lendo... em transe: A vida continua...

Um homem que por ali passava, sem querer, esbarrou nela, interrompendo seu delírio.

- Desculpe, moça.

Sem resposta, ele foi embora um pouco desconfiado. Eva acalmou-se e refletiu por alguns instantes. Sentiu que estava sendo observada, mas não deu importância. A pessoa que havia falado com ela já havia desaparecido.

Ajeitou-se e ensaiou os primeiros passos. Olhou amargurada para o cartaz pela última vez. Em seguida, sentindo um gosto insuportável e sufocante de amônia, partiu pela mesma rua... em direção a uma imensa e inescrutável tristeza.

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