A Garganta da Serpente
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O EXTERMINADOR DE ALMAS - CAPÍTULO 2

(André Ferreira Machado)

Rio de Janeiro, 1.814


Eric acordou, revirou-se na cama e deitou-se de lado. Com apenas um olho aberto, olhou o grande relógio de ponteiros, que marcava oito e quinze. Eric voltou a deitar de costas, inclinou sua cabeça para a esquerda e soltou um grande bocejo. Ele queria continuar deitado, continuar dormindo, mas não podia, não naquela nublada manhã de Domingo.

Sua mãe abriu a porta do quarto lentamente e o chamou com sua doce voz:

- Eric... Oito e quinze...

- Ta, eu já sei... - quase não conseguia pronunciar aquelas palavras de tanto sono.

- Levanta, meu filho! Vamos nos atrasar para a missa.

- Eu já estou indo...

A mãe retirou-se calmamente. Eric agarrou-se no travesseiro e fechou os olhos. Que sensação maravilhosa! Quisera ficar ali para sempre, quisera nunca crescer.

Mas a obrigação sempre falou mais alto naquela família. Eric olhou novamente para o relógio: eram oito e dezessete. Tomou todas as forças que possuía e levantou-se. Espreguiçou-se ao lado da cama, de pé, com apenas aquele camisolão branco que usava para dormir. Abriu a porta do quarto: sua mãe estava tomando café; seu pai estava sentado na sala, discutindo alguns negócios. Com quem seria? Eric logo identificou a voz de Serafim Barcelos. Não gostava muito dele, nem sua mãe. Foi à frente da porta do banheiro, tentou ouvir o que seu pai falava, mas o sono ainda o impedia de distinguir qualquer coisa. Abriu a porta, entrou, fechou-a novamente. Fez suas necessidades, abriu a torneira de bronze. Por uns instantes, ficou olhando para aquela água que jorrava. Lentamente, inseriu suas mãos debaixo daquele fluxo. A água estava fria, muito fria. Tomou coragem, novamente, e levou as mãos ao rosto. Se havia algum resto de sono, ali, a água deve tê-lo espantado.

Saiu do banheiro e voltou ao quarto. Fechou a porta. Logo percebeu que a escrava já colocara suas roupas dominicais sobre a cama: roupas de baixo, uma calça marrom, uma camisa branca, com gola, e uma gravata borboleta. O garoto logo adivinhou que a escolha de tais trajes deve ter sido obra de sua mãe.

Fechou a cortina e trocou de roupa. Tinha os cabelos loiros, da cor da palha, cacheados, mas nem tanto (alguém que não o conhecesse poderia pensar que ele estivesse despenteado, mas era assim mesmo) e os olhos verdes da cor das águas. Eric olhou-se no espelho: estava um autêntico cavalheiro.

Foi correndo para a cozinha, mas sua mãe repreendeu:

- Eric, não corra.

- Sim, mamãe. - concordou com um certo tom de submissão ao sentar-se.

Sua mãe estava dentro de um daqueles grandes e charmosos vestidos de sua época. Rosa, com detalhes brancos, uma saia enorme. Sempre eram necessários três ou quatro escravos para arrumar a senhora em seus trajes e para ajeitar os seus longos cabelos cacheados ruivos.

- Eric, sua gravata está meio frouxa, eu posso perceber. Rosa, arrume a gravata de meu filho.

- Sim, sinhá.

Rosa era mais que uma escrava: era praticamente um membro da família. Aliás, esse era um ponto forte naquela residência: nunca, em tempo algum, ouviu-se qualquer reclamação de maus tratos de escravos. Os pais de Eric, Norma e Vladimir, nunca apoiaram o uso de violência. Lá, troncos e outros instrumentos de tortura tinham sido banidos há muito tempo. Os sócios e colegas do Sr. Vladimir viam tais atitudes com maus olhos, mas ele sempre afirmava que sabe o que fazia. Bem verdade que nunca, também, tiveram-se relatos de fugas na residência dos Braesnovenn - sim, esse era o sobrenome daquela família. Naquela casa, os escravos eram tratados como homens livres e até esse termo - escravo - era evitado ao máximo por todos.

Mas Rosa ajeitou a gravata de Eric, que lhe agradeceu e sentou-se. Estendeu a mão e pegou uma fatia daquele delicioso pão caseiro, passou aquela geleia de morangos que o estava seduzindo, enquanto Rosa colocava o leite e o café na xícara.

Eric colocou três colheres de açúcar - era o seu gosto - e tomou aquela bebida em silêncio. Após um longo gole, deu uma grande mordida naquela fatia de pão. Enquanto saboreava, sua mãe foi informando-lhe:

- Hoje, após a missa, eu irei falar com o Padre Ambrósio. Vou pedir a ele que o coloque como coroinha da igreja.

- Mãe, eu não quero.

- Eric, você já está passando da idade de ser coroinha. Eu ia fazer isso no passado, mas o gênio do seu pai, aliado ao seu próprio gênio, não permitiu isso.

- Mãe, eu já disse que não quero.

- Eric, qual seria a razão dessa sua teofobia?

- Nenhuma.

- Então, Eric, faça o que eu mando. É o melhor para você. Eu ainda sonho com o dia em que você vai ser padre e... - falava com um certo entusiasmo.

- Mãe... - cortou - já parou para perguntar o que eu realmente quero ser? Há uma pequena diferença entre o que eu quero ser e o que a senhora quer que e seja.

- Meu filho, você tem apenas 14 anos... não está maduro o suficiente para tomar decisões por si só.

- Não acha que essa é uma opinião que eu deva ter?

- Não discuta, mocinho! Tome o seu café, ou vamos nos atrasar. Odeio chegar atrasada na igreja... ficam todos olhando, - ela saca o seu leque e começa a se abanar - com aquele olhar... condenatório... toda aquela gente nos olhando como se fôssemos... criminosos...

- Vês? Esta é a opinião que a sociedade tem de nós. Mas, a opinião deles não reflete necessariamente a nossa realidade.

- Com certeza querido.

De repente, eles ouvem berros na sala ao lado e uma mesa ser derrubada.

- Mas eles tão se matando?

- Deixe seu pai e o Dr. Barcelos para lá, querido... estão tratando de negócios.

- Parece que estão lutando, isso sim. Não gosto desse homem.

- Eu também não mas, fazer o quê.

- Milagre ele ter conseguido se formar doutor...

- Ainda bem que doutor advogado... já pensou se fosse de gente?

- Prefiro não pensar nisto.

Eric continua tomando seu café, prepara e come mais um pão. De repente, seu pai surge, na porta da cozinha, com as mãos na testa. Eric logo se assusta:

- Pai, o senhor está ferido?

- Não, filho... estou apenas com dor de cabeça... de tanto ouvir aquele chato falar...

O homem senta-se na cadeira, pega um pão, passa a geleia e dá umas poucas dentadas nele.

- Qual foi o motivo da discussão, agora? - Eric pergunta curioso, como sempre foi.

Seu pai suspira e começa a falar:

- Ele quer dinheiro emprestado. Os altos impostos do Governo estão quase falindo com a sapataria dele. Eu disse que não poderia ajudá-lo e ele já meteu a boca em todo mundo, disse que ia matar a todos nós e nos fazer arder no fogo do Inferno.

- Cruzes! - espanta-se Norma.

- Estamos falidos, papai?

- Não, Eric. Só estamos passando por um momento difícil como tantos outros. Temos uma dívida grande, uma dívida com a metrópole, mas já passamos por cousas piores. - Vladimir suspira - E não é de hoje que o Dr. Barcelos vem me importunando, foi desde que mudamos para o Rio. Eu lhe disse, Norma, que deveríamos continuar em São Paulo, mas você insistiu em vir para cá!

- É claro... Assim, ficamos mais perto de Mamãe.

- Quer dizer... da sua mãe, porque a minha continua lá, no outro estado. Só visitamos a coitadinha praticamente uma vez por ano.

- Querido...

- Porque desde que eu me casei, é o que você quer. Onde já se viu, o homem, o chefe de família, ser submisso a sua esposa?

Quando eles começavam esse tipo de discussão, Eric fechava seus ouvidos para ambos. Ele concentrou-se em terminar o seu desjejum. Aquela briguinha só não ia ser longa por causa da bendita missa, a qual Dona Norma jamais faltara. Bem verdade que, naquele tempo, a mulher tinha um papel submisso em relação ao homem; naquela época, as mulheres sempre ficavam dentro de casa, só saíam nos finais de semana, para irem à igreja, conforme ia ser agora. Não se deve deixar de citar o fato de que, com a chegada de D. João ao Brasil, muitos destes hábitos da elite já estavam mudando. Por quê? Porque mesmo pertencendo à elite, os poderosos ficaram isolados da cultura europeia, acabando por praticar atos até mesmo chulos para a posição social que ocupavam. Eric terminou a xícara rapidamente, ficando alheio à conversa em sua volta, até que seu pai finalmente explicou-lhe, involuntariamente, a origem de tanto ódio por parte de Serafim Barcelos:

- Porque todo o ódio daquele canalha é sua culpa!

- Ah, agora é culpa minha!

- É claro. Quando chegamos aqui, ele já acertou a compra desta casa e você me fez cobrir a oferta. Aquele louco nunca aceitou isso e, desde então, jurou vingança.

- Negócios são negócios, querido, é você quem diz. Eric, já terminou seu café?

- Sim, mamãe.

- Então vamos, não queremos nos atrasar.

Vladimir intervém:

- Você quer dizer que não quer se atrasar, não é? Porque eu não vou nessa missa!

- Querido!!! - ela põe o leque em frente aos lábios - Não diga tamanha blasfêmia! Vamos, sim e vamos todos! Eric precisa receber bons exemplos, principalmente de você. Não vai passar de hoje, eu vou falar com Pe. Ambrósio e acertar o curso de coroinha dele.

- Meu amor, eu acho que é o nosso filho que deve decidir o futuro dele.

Eric concorda:

- Eu disse isso à ela.

Norma interrompe:

- Eric, vá lá pra fora me esperar. Eu já estou indo.

- Mas, mãe...

- Sem "mas".

- Sim, mamãe.

Eric retira-se da mesa. Instantes depois, Vladimir dá a cartada final:

- Realmente, querida: você deve começar a dar bons exemplos para o Eric.

Norma ignora o comentário, continuando a se abanar com o leque.

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