A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

O EXTERMINADOR DE ALMAS - CAPÍTULO 10

(André Ferreira Machado)

- Eu pensei como você me disse... - os dois caminhavam de novo pela trilha - Eu tinha que dizer alguma palavra mágica?

- Não. - Christian demonstrava um claro tom de fúria em sua voz.

- Eu pensei: "Quero que não me vejam". Era assim?

- Era.

- Então, o que deu errado?

Christian vira-se para Eric.

- Você não teve fé. Você não acreditou que, se pensasse nisso, iria se tornar realidade.

Christian volta a caminhar, olhando para frente.

- Mas, eu quis que fosse feito.

- Há um antigo ditado o qual diz que querer não é poder. Não se preocupe: quando eu me tornei um Exterminador de Almas, eu era como você. Estou aqui para ensiná-lo a descobrir seus poderes e habilidades.

- E se eu não conseguir chegar aonde você chegou?

- Você vai conseguir. Gabriel acredita que você vai ser único, muito poderoso...

- Ele não te disse mesmo por que me escolheu? Eu não era mau...

Christian torna a virar-se para Eric.

- Ele não te escolheu só por causa daqueles números. Você, um jovem sonhador, nunca está satisfeito com o presente, só fica pensando no futuro. Obedecia aos seus pais, mas não acatava todas as ordens, algumas, fazia contra a vontade. Na escola, era aplicado, mas preferia fazer bolinhas de papel e jogar conversa fora com os amigos a prestar atenção nas aulas de Matemática. Ficou em recuperação dois anos, sendo que só foi aprovado em um porque os seus pais imploraram ao diretor. Nas noites quentes, gostava de dormir pelado, não se interessa pela Igreja, não quis ser coroinha e, aos 14 anos, nem catequese tinha feito ainda... Sua mãe queria que você entrasse para o Clero e recebesse todos os sacramentos que tinha direito, mas você, não se sabe por que, relutava. Um garoto que não tivesse recebido o Corpo de Cristo tem mais chances de se tornar um Exterminador de Almas do que um que já tenha feito a Eucaristia.

- Ele te contou tudo isso?

- Contou sim. Mas eu não contei para ninguém.

Os dois continuam caminhando.

- Como ele sabe de tudo isso?

- Ele é anjo. Acha que está sozinho? Eles estão te observando agora. Estão observando você e todo mundo, anotando tudo que você faz...

- Mas uma parte disso não é verdade... Eu nunca dormi pelado...

- Mas já quis...

- Mas nunca fiz isso...

De repente, Eric pára. Christian pressente algo.

- Eric, o que foi?

- Estou sentindo algo estranho...

- Ah, pois é. Eu falei que você tinha que ir ao banheiro antes de sairmos...

- Não é isso... tem mais alguém aqui...

Christian olha espantado para Eric. Naquela floresta azulada, atrás de Christian, um homem salta dentre as moitas. O garoto vira-se e observa aquele homem, com roupas rasgadas e uma barba por fazer...

- O que esses dois garotinhos estão fazendo aqui? O Lobo Mal pode pegar vocês...

Christian olha para Eric com uma cara de "Eu não acredito que isso esteja acontecendo".

- Cara, a gente está atrasado, a gente tem que ir pra casa da vovozinha... - diz Christian, empurrando o homem e andando em frente.

O homem aperta bem o braço direito de Christian:

- Eu posso te levar pra lá, se quiser... não está com calor, com uma roupa dessas? - Eric afasta-se lentamente, caminhando para trás - Ele é teu amiguinho?

Christian tenta fugir, mas o homem o derruba, ficando sobre ele.

- Por que você está fugindo?

- Por que você não me toca desse jeito, hein???

Christian toca a face do homem, o qual grita e transforma-se num esqueleto, virando pó em seguida.

- Eu odeio quando isso acontece!!! - diz levantando-se.

- Pensei que você gostasse... - brinca Eric.

- Só quando EU quero.

Instintivamente, Eric olha para a direita e percebe, por entre a relva de uma elevação, um homem nervoso apontando uma espingarda. O homem aperta o gatilho...

- Christian, cuidado!!!!

- Com o quê?

A bala vai, lentamente, na direção do albino, impressionando o ar, deixando um rastro por onde passa. Com um movimento preciso, Christian pára a bala com as mãos, a qual cai aos seus pés. Eric espanta-se. O homem sai correndo. Christian vai atrás dele. O garoto corre e, em certo ponto, sobe uma escada invisível no ar e chega à parte elevada. Eric dá uns pulinhos mas não consegue fazer igual.

- Como foi que ele fez isso? - Pergunta, já escalando o morrinho manualmente.

Na parte de cima, uma perseguição implacável. O cúmplice sabe que aquele garoto assassino está atrás dele, mas não sabe aonde. Ele corre para qualquer lugar, tentando fugir daquilo que não pode ver, mas o garoto surge à sua frente.

- Tava me procurando, bonitinho?

Desesperado, o homem atira contra o garoto, que se movimenta com a velocidade do pensamento, desviando-se de todos os tiros. A munição acaba e ele foge para o outro lado, quando vê Eric correndo em sua direção. Gritando de medo, tenta fugir para a esquerda, mas Christian o derruba no chão.

- Por favor, não me mate.... não me mate!!!!

- Está com medo?

- Muito!!! Muito!!!!!

- Eu não vou te matar. - ainda imobilizando o homem, ele levanta-se e olha para Eric - Vem aqui...

Eric caminha, sem entender muita coisa. Fica em frente ao homem, agonizante.

- Abaixe-se. - Eric apoia-se sobre os joelhos - Toque a face desse homem.

- O quê?

- Toca ele.

O homem olhava com espanto para Eric.

- Eu não posso fazer isso.

- Você precisa fazer. Vai acabar fazendo mais cedo ou mais tarde. Tem que aprender isso... Vai, toca.

Eric, lentamente, aproxima sua mão da face daquele desconhecido. A respiração dele era demasiada forte. Profunda e nervosa. Chegou a tentar balbuciar algumas palavras, mas o pavor o impediu de dizer qualquer coisa. Eric aproximava a mão lentamente e encarou o homem. Penetrou fundo nos seus olhos. Lembrou-se do que havia ocorrido com ele próprio há um século. Os olhos daquele estranho. Os olhos de Pe. Ambrósio. Ambos fundos e nervosos. Ambos pedindo, implorando por salvação. A diferença é que, há um século, Eric era, também, uma vítima e, agora, tornara-se um algoz.

A mão de Eric estava bem próxima da face do homem. O garoto fechou os olhos. Christian começou a sorrir, maliciosamente. Eric soltou um suspiro e recolheu a mão.

- O que foi, Eric?

- Não posso fazer isso...

O estranho leva o seu rosto por terra, respirando aliviado. Christian olha para ambos.

- Certo. Levante-se. Você ainda não está pronto para fazer isso.

Eric começa a levantar.

- Ta falando sério?

- Não.

Em um rápido movimento, Christian, apoiando sua mão esquerda sobre as costas do homem, gira o seu corpo 360 graus, fazendo Eric cair e tocar a pele do pobre coitado, que grita e acaba vítima de seu destino. Em meio ao tom azul da floresta, Eric suspira fundo, olhando para baixo. Lentamente, ergue sua face para Christian, o qual já está em pé.

- Como você pôde fazer isso??

- Acidentes acontecem....

Christian retira-se lentamente. Eric permanece ali, ajoelhado, apoiando suas mãos no solo, onde antes havia um homem e, agora, cinzas. Fica ali por um tempo, mas logo percebe que não tem escolha, a não ser seguir aquele albino.

A tarde foi quente, abafada e perturbada para Eric. O Sol se pôs lentamente. As trevas vindouras prometiam amenizar a temperatura. Os dois garotos estavam sentados na frente daquela velha casa.

- Não acredito que você me obrigou a fazer aquilo...

- Esquece isso...

- Como eu posso esquecer? Você me fez matar um homem...

- Esse é o seu destino...

- Não acredito em destino.

Christian vira-se para Eric.

- Foi o que eu disse hoje de manhã.

Os dois se calam. Eric fica olhando para baixo por um longo tempo, em silêncio, quando toma a palavra.

- É impressão minha ou você está preocupado com alguma coisa?

- A Guerra.

- Que Guerra?

- Os Austro-Húngaros e os Bósnios estavam em conflito. Em 28 de Junho desse ano, Franz Ferdinand, sucessor do Império Austro-Húngaro, foi assassinado por um estudante em uma visita à capital da Bósnia. O Império envia um ultimato à Bósnia, para que sejam tomadas providências. Como as exigências não foram atendidas, em 1º de Agosto, os austríacos invadiram o país.

- E isso é importante?

- Claro. Pode não parecer, mas outros países europeus estão se juntando a essas duas potências. Os países mais importantes do Mundo irão à Guerra, e isso será conhecido como I Guerra Mundial. E isso trará uma grande mudança.

- Que tipo de mudança?

- Essa Guerra vai terminar em 1.918, deixando vários mortos e feridos. Com o seu fim, a Alemanha será humilhada, e um sentimento de revolta lentamente irá crescer nesse país. A velha Europa perderá o seu trono, e outro país nele assentar-se-á. Esse país é os Estados Unidos. Eles controlarão a economia do mundo por um longo período mas, durante sua ascensão, uma força fantasma, criada pelo acaso no fim da Guerra, começará a crescer silenciosamente.

- Acho que gosto quando você fala do futuro. Que força é essa?

- Essa força ainda não terá muito destaque. Antes da metade desse século, um homem assumirá a Alemanha humilhada, e ele dará ao povo desse país a esperança deles fazerem sua revanche, seus planos, entretanto, serão outros. Haverá uma Segunda Guerra e um povo inteiro será sacrificado e os Estados Unidos assumirão sua "soberania", mas a outra força, chamada Socialismo, já estará maduro o suficiente para enfrentar a nova potência, e surgirão duas grandes forças: os Estados Unidos, representando o Capitalismo, o consumismo e o dinheiro e a União Soviética, hoje Rússia, que representará a igualdade entre as classes sociais. Igualdade, esta, que suprime a liberdade. A Alemanha será partida ao meio e, assim, veremos os dois lados dessa moeda.

- E aí?? - O entusiasmo volta a tomar conta de Eric.

Após isso, na década de 60 desse século, haverá uma Guerra Fria. As potências, temendo uma Terceira Guerra, produzirão muitas armas. No final da década de 80, o Socialismo será derrubado e os Estados Unidos assumirão sua posição imperialista definitivamente, passando a pregar uma falsa liberdade entre os povos, liberdade esta que somente beneficiará a eles próprios. Em 1990, o Iraque, liderado por um ditador, invadirá o Kuait e os Estados Unidos, novamente irão se intrometer. A Guerra será passada como um teatro para o mundo todo e o Iraque será arrasado, mas o ditador permanecerá em seu trono. Haverá embargos. No primeiro ano do próximo milênio, o rei perderá seus chifres, exatamente num dia de hoje, no aniversário de tua morte. Ferido, o rei destruirá, em vão, o país do responsável pelo atentado e forjará motivos para, novamente, invadir o Iraque. Todos os povos serão contra a Guerra, mas o presidente, um Louco, fechará os seus ouvidos, ferirá inocentes e irá capturar o ditador que, outrora, fora deixado em seu trono. O Responsável, no entanto, permanecerá incógnito.

- E esses Estados Unidos vão conquistar o mundo?

- Eles já começaram a fazer isso.

- E por que nós não os impedimos?

- Porque não podemos.

- Como "Não podemos"?

- Poder podemos. Mas, Gabriel lhe disse o que aconteceu na Idade Média. Uma grande batalha entre anjos e Exterminadores de Alma, com várias vidas sacrificadas. Desde então, nossa raça se tornou secreta. Se os humanos descobrirem que nós existimos, isso será uma verdadeira catástrofe.

- E a tal grande "missão final" que Gabriel disse que eu deveria executar?

- Não sei como será, mas será uma grande dificuldade que você deverá enfrentar. Vou treinar você pra isso.

- Mas, quando esse dia chegar, você vai me ajudar a cumprir o que eu tenho que fazer... ou não?

- Eric, eu não sei se ainda vou estar aqui quando tudo isso acontecer...

Eric olha firmemente para o rosto de Christian.

- Como assim?

- Na Bolha do Tempo, eles lhe falam sobre todos os futuros, menos um: o seu próprio. Certa vez, eu perguntei como seríamos eu e você. Eles deixaram escapar que você deverá terminar o seu caminho sozinho...

Eric sente uma ligeira sensação de mal-estar, como uma bolha em seu estômago. Os dois permanecem ali, calados, um ao lado do outro, por um longo tempo. Por fim, Christian resolve entrar, Eric fica na rua mais um pouco.

No quarto, Christian arrumou a cama e outro colchão com lençol, o qual pôs no chão para si.

- Você quer que eu durma na cama?

- Claro. Você merece.

- Mas isso não é justo...

- Aproveite.

- Tenho medo dessa história... de virar pó.

- Você não vai sentir nada. O seu corpo sempre se reconstrói. Sempre.

Eric deita-se e suspira fundo. Christian observa-o.

- Está me olhando por quê?

- Por nada. Lembre-se de uma coisa: a vida é quente. Você não pode sonhar, mas nessa noite, sua primeira noite, seu espírito irá fazer uma viagem.

- Uma viagem? Como? Para onde?

- Durma. E você vai descobrir.

  • 2295 visitas desde 22/09/2005
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br