A Garganta da Serpente

A Praia e Uma Vendedora

(André Espínola)

Naquela noite fria, eu estava sozinho no meu quarto escuro. Uma luz fraca iluminava-o parcialmente. Encontrava-me, escrevendo alguma coisa, com uma garrafa de vinho em cima da mesa, um cinzeiro com um cigarro aceso e a Solidão ao lado.

Ela era minha acompanhante. Cada vez que terminava algum poema ou conto, mostrava-lhe e ela fazia suas críticas, apontando-me o que e onde mudar, de acordo com suas emoções.

Inesperadamente, alguém entrou no quarto.

Inicialmente não reconheci quem era.

Era o amor.

Ao reconhecer o visitante, meus olhos se encheram com o brilho da esperança, um brilho de felicidade, um brilho de admiração diante de um visitante nobre, ilustre. Mas no olhar da Solidão via-se a chama do ciúme.

O amor passou uma vista rapidamente pelo quarto, encarou a Solidão, olhou-me piedosamente e falou:

- Vem comigo. Tu, que há tanto me esperas, vem comigo, vem!

Aquelas palavras pegaram-me de surpresa. Eu não sabia como reagir!

Não sabia se corria para abraçá-lo, aproveitando sua tão sonhada presença, ou se respondia um simples "eu vou", educadamente, controlando minhas emoções.

Não fiz nada disso.

Eu chorei.

- Não posso - falei tristemente, mostrando-lhe a algema que me prendia à Solidão.

O amor imediatamente compreendeu a situação.

A Solidão, por sua vez, sorria vendo toda aquela cena. Estava muito confiante de si mesma.

Mas uma coisa eu não entendia. O amor continuava a olhar-me de um jeito estranho, condescendente até.

E o visitante falou:

- Não te preocupes. Não desistirei de ti. Ocasionalmente, visitar-te-ei a fim de que te acostumes com a minha presença. Dar-te-ei a força necessária para que te possas livrar dessas algemas e do domínio da Solidão. No porvir, terás a mim como companhia.

Olhei-o em agradecimento.

Ele entendeu, virou as costas e retirou-se

E eu fiquei novamente sozinho com a Solidão.

Tomei mais um trago do vinho, sentei e tornei a escrever.

Aguardando a próxima visita do Amor.

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