A Garganta da Serpente
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Eu e o meu anjo

(Adelmario Sampaio)

Já pensei que ele pudesse ser um anjo. Ele é muito diferente de todas as outras pessoas que conheci e conheço. O seu pensamento é assim como diria, misterioso, se não superior.

Nem sempre responde às perguntas. Ou melhor, as suas respostas não são no momento nem do jeito que esperamos. Também, geralmente não repete uma resposta. É um tipo de filosofia que ele tem de que precisamos aprender a ouvir... Também parece que para ele o tempo não tem a mesma importância que para nós.

Eu havia feito uma pergunta que já não me lembro bem das palavras. Penso que tinha falado de que gostaria de ouvir o que é que Deus tem a dizer hoje para nós. Ele ficou calado, e saímos para um passeio. Ele gosta muito de passear pelos campos e dessa vez, o acompanhei. Muito tempo depois, estávamos perto do rio, e ele saiu e ficou a uma certa distância que eu podia ouvir a sua voz. De longe ouvia que ele falava, mas a princípio embora ouvisse bem o som da sua voz, não entendia as palavras. Pensava que estivesse declamando algum poema como costumava também fazer. Apurei os ouvidos para entender e só agora, depois de muito tempo, foi que as palavras vieram ao meu pensamento, e percebi com certeza que era a mim que falava. Eis as palavras que consigo me lembrar:

"A quem pediu o alimento, não foi negado esse banquete. Não são só os filhos, mas também os convidados que se assentam à mesa, e banqueteiam juntos, e já não há distinção entre eles, porque quem come do mesmo repasto, são da mesma natureza, e nasceram no mesmo lugar, e no mesmo instante da criação. Não lhes foi negado o pão, o peixe, e o vinho... Eis a festa de casamento... Eis aí o Noivo do vosso lado. Eis também os convidados ataviados para a festa... Das suas melhores roupas se vestem... E se alegram porque esse é um tempo de alegria, porque o Noivo veio buscar aquela que não o traiu diante dos discursos dos sedutores de todas as nações".

Foi nesse momento que percebi com clareza que ele estava respondendo às perguntas que eu fizera. Mas naquele momento não tive tempo de recordar as palavras para que elas se fixassem mais no meu pensamento, porque ele ainda continuou. E as palavras que disse depois eu pude anotar na íntegra:

"Não tenha medo!... Chegou o tempo de ouvir a verdade... O que foi dito em sussurro ao ouvido, será proclamado ao mundo"...

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