A Garganta da Serpente
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Kaos

(Abelardo Domene Pedroga)

Ele nasceu há muito tempo. Tempo? Não, isso é errado. Quando ele veio a existir ainda não havia o tempo, portanto ele antecede a tudo e todos.

Não estava lá, mas a necessidade da criação acabou por gerá-lo: do nada, do abismo profundo, do antes de tudo, da escuridão total, mas, nem mesmo a escuridão existia.

Nasceu disforme, matéria bruta, sem coesão ou sentido, a única prerrogativa é que em sua massa estavam embutidos os princípios de todas as coisas.

Então por eras antes do tempo ele reinou único, soberano de si mesmo. Mas, nascido do nada se sentiu solitário, sendo o princípio de tudo almejou ter companhia. Cansou de ser soberano e único súdito de si mesmo. Como único ser do começo de tudo não havia como gerar descendentes. Como única alternativa iniciou então os desdobramentos: se contorceu no infinito que ocupava e trouxe alguma ordem à sua existência. E dessa maneira nascem Tártaro, Gaia, Eros e a Noite.

Cada qual com uma missão, cada qual com suas prerrogativas, mas trazendo dentro de si a necessidade intrínseca de criar mais vidas, pois assim que deve ser. Foi para isso que ele os criou.

Seus filhos apresentam estranhos e importantes significados

Tártaro representa as Terras infernais, é associado à escuridão primeira - aquela que antecedeu a existência de qualquer tipo de luz.

Gaia é a mãe Terra, fonte infinita de vida, de seu largo ventre vão nascer deuses, monstros, e muitas entidades primitivas. Ela vai gerar as indomáveis forças da natureza, pois essa é sua missão, ser a mãe universal.

Eros representa o amor, pois era preciso dar um sentido às coisas, ainda não havia os conceitos de masculino e feminino, mas Eros nasceu para isso: ordenar a criação, a geração não poderia ser mais por desdobramentos e sim através de ligações entre representantes de sexos opostos.

E também nasceu a Noite, para ocupar um espaço no vácuo, agora não tão vazio.

Com interesse ele olha seus filhos e filhas. Gaia nasce tendo a capacidade infinita de gerar vida. Sozinha, usando da mesma técnica do pai, o desdobramento, faz nascer Urano, o céu estrelado, as montanhas e o Oceano.

Tártaro e Noite, se aproximam e sob a força imperiosa de Eros, formam o primeiro casal, geram o Dia, que vai se alternar com sua mãe de tempos em tempos, e também nasce o Éter, o céu superior, aquele que vai ficar acima do próprio Urano, filho de Gaia. Com essas criações o primeiro ciclo se estabelece, à Noite sucede o Dia. Luz e Escuridão possuem seus períodos definidos para reinar no vácuo, afinal há entidades luminosas, o paradoxo é que foram gerados pelos representantes das trevas, mas a criação apresenta essas aberrações.

Ele contempla sua obra criadora.

Ainda sem um parceiro Gaia se une ao próprio filho Urano, nasce daí a união que mais frutos há de gerar, nascem os titãs, os Hecantônquiros, os Ciclopes.

Mas Urano é pai cruel, encarcera seus filhos nas entranhas de Gaia, essa atitude vai fazer com que sua mãe e esposa trame contra o filho e marido.

O Tártaro se posiciona por baixo de Gaia, no futuro ele vai receber as almas dos mortais, assim como servirá de prisão para os inimigos dos deuses. Também se unirá à irmã Gaia e dessa união nascera o monstro Tífon que acaba por desafiar o poder dos próprios deuses, numa tentativa inútil de trazer de volta a escuridão e ambiente selvagem dos primórdios da criação. Mas o monstro acaba derrotado, demonstrando que a partir dali as forças dos deuses e da luminosidade sempre vão se impor perante os seres da escuridão.

Neste tempo já nasceram outras entidades e tudo começa a se encaixar com perfeição. À noite se sucede o Dia, sobre Gaia há o céu estrelado representado por Urano, o Eros primordial cuida para que a geração se faça unindo o masculino e o feminino, acabando com isso com os desdobramentos que as entidades se utilizaram para gerar os seres primordiais. Tártaro acha seu local por baixo de Gaia. Tudo parece estar em sintonia, o cosmos começa a funcionar como deve. Já nasceu o tempo, representado pelo Titã Cronos.

Ele contempla tudo isso com satisfação, afinal foi dele que tudo nasceu e a vida se iniciou. Agora as forças da natureza - ainda selvagens e inóspitas - estão se ordenando, pois permanece ativo o princípio da criação.

Ele deduz que seu reinado chegou ao fim, agora são suas filhas e filhos que vão continuar sua obra. O que vai acontecer, como as diversas facetas de sua obra vão se organizar, não importa. O que importa é que sua missão está concluída. Ele pode descansar.

Assim Kaos se retira do cenário da vida e da criação, sua matéria inerte se retraí, dando lugar às forças geradoras daquilo que criou, sem ter mais o que fazer ele se recolhe em si só. Mas fica atento, pois um dia tudo estará gerado. Depois disso o natural é que a vida comece a se retrair.

Chegará o dia que nada mais vai existir, então nessa era chegará o momento do recomeço, pois tudo segue uma ordem natural, princípio, meio, fim. Ele vai aguardar o nascimento da última entidade, "o Fim", então terá de sair de seu local de repouso, ativará novamente sua energia criadora e terá novamente diante de si a tarefa de tudo reiniciar.

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