A Garganta da Serpente
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Euclides e a Dona Morte

(Anjo Caim)

Quando Euclides chegou em casa, naquela segunda-feira, já eram mais de dez horas da noite. Como sempre, chegara fadigado, achando a vida e seu trabalho uma merda. Porém, mantinha a coragem de continuar vivendo. Apesar dos pesares, não era nem a favor, nem contra a sua atual situação. Nunca achou que deveria ter algo melhor, mas também não descartava a ideia de que não merecia aquilo que tinha. Sempre fora um homem solitário. Não tinha parentes próximos vivos, ou distantes que os conhecesse. Não tinha namoradas ou amantes, amigos ou inimigos, afetos ou desafetos, nem mesmo considerava como colegas as pessoas que trabalhavam na sua divisão no DERT. Ia e voltava para casa calado. Era um mudo para o mundo. Nem mesmo pronunciava se alguém lhe fizesse um comentário no ônibus, ou lhe perguntasse as horas. O máximo que poderia dar ao indivíduo que realizasse tal proeza (tendo como "cartão de visitas" sua expressão fechada e arredia) seria alguns resmungos, que poucos aceitariam como um "sim" ou um "não", mais do que isso seria um verdadeiro milagre.

Retirou, vagarosamente do bolso, a chave de seu apartamento de quarto, sala e banheiro na rua Alberto Magno, em cima de um ponto comercial, no bairro do Montese (o único lugar que gostava em toda a cidade de Fortaleza), e abriu a porta de maneira calma e taciturna. Ligou as luzes sem olhar para o interruptor, mas mantendo seu olhar concentrado na escuridão que vinha da casa. Quando o ambiente pareceu claro, ele viu, sentada em seu sofá velho e mofado a Dona Morte. Esta fumava um cigarro de eucalipto, que aos poucos, impregnava toda a pequena sala de Euclides. Como já era de se esperar, vestia um manto negro, o mais negro que Euclides havia visto em toda sua vida. O manto parecia que absorvia todo tipo de cor que a sala apresentava (sabendo que esta tinha poucas) e, todas as poucas vezes que Euclides olhava para o manto, este se tornava mais negro e contrastante, sendo quase físico o estado de cor que o manto emanava.

- Olá Euclides. - fala respeitosamente Dona Morte, enquanto Euclides analisa os tons escuros nas paredes e no teto de seu apartamento.

Euclides responde algo ininteligível, coloca sua camisa suada no cabide que está do lado da porta, dirige-se até à geladeira no fundo da sala e bebe um pouco de água. O som dele engolindo o líquido é fortemente ouvido por Dona Morte, que faz uma expressão de nojo quando Euclides retira um piolho de seus cabelos e esmaga-o com os dentes, cuspindo o corpo estraçalhado do inseto. Sem nenhum tipo de reação; ou de surpresa, ou de espanto; Euclides pega a toalha, também mofada, em cima do sofá. Despe-se vagarosamente e se dirige ao banheiro. Mantendo a porta aberta, toma um rápido banho e cumpre todas suas necessidades fisiológicas. Dona Morte continua fumando seu forte cigarro, dessa forma ela evita o podre odor que sai do banheiro de Euclides.

Ambos estão calados, com Dona Morte esperando alguma reação de Euclides e este desconsiderando a presença de sua "invasora". Euclides volta para a sala, vestindo somente um calção azul listrado rasgado. Retira da geladeira um resto de arroz, um pouco de feijão e dois ovos. No outro canto da sala há um pequeno fogão de acampamento, que possui apenas duas bocas. Coloca toda a comida em uma panela suja. Liga o fogo. Mistura tudo na panela até aquecer por completo. Ao notar que a comida está na temperatura de seu gosto, coloca tudo em uma embalagem de quentinha, senta em frente à Dona Morte e como ferozmente seu "trivial". Dona Morte observa tudo como se aquilo fosse realmente interessante. Com admiração, estuda cada movimento de Euclides, como se precisasse daquilo para o resto de sua enfadonha imortalidade.

Após o rápido jantar, Euclides vai ao seu quarto. Liga o pequeno rádio e se deita na cama de colchão rasgado e colcha suja. Dona Morte, ainda na sala, escuta em silêncio a canção que toca no rádio. Seu cigarro está perto de acabar. Aspira-o fortemente, esperando que o cigarro termine logo para que ela possa fazer o que veio realmente fazer.

Podia-se notar, pelo balançar constante e suave de seus dedos, que Dona Morte desejava alguma coisa. Alguns chamariam aquela atitude de nervosismo, mas poucos se atreveriam informar ao "nervoso" que tal ato esteja ocorrendo. Apesar de tudo, Dona Morte mantinha-se calma e paciente se comparada aos padrões humanos. Mas, nenhum tipo de "padrão humano" aplica-se à Morte.

Euclides estava com os olhos fechados. Calado, quieto, e imóvel. Parecia morto. Afinal, Euclides sempre pareceu um morto. Como um vegetal que mantém funções sem saber que realmente as faz. Um tipo de máquina pré-programada que deveria fazer tudo do mesmo jeito todos os dias, sem ter algum tipo de sugestão sobre o resto do mundo, ou com o pouco de sua vida. "Vida"?! Será que Euclides sabia o significado desta palavra?

Dona Morte finalmente acabou de fumar seu cigarro, porém, o odor parecia mais forte agora. Ela se dirigiu vagarosamente até o quarto de Euclides. O forte odor de eucalipto impregnou o apartamento. Agora, "o perfume" era parte daquele cubículo que poucos chamariam de casa, ou teriam a coragem de nomeá-lo como "lar". Dona Morte entrou no quarto de maneira calma, sem querer chamar a atenção do morador do apartamento. Encontrou Euclides deitado, imóvel como sempre. Euclides estava de costas para ela, com sua volumosa barriga escondida. Seu fedor era inibido pelo cheiro de eucalipto que ficou do cigarro de Dona Morte.

Vagarosamente, Dona Morte retirou seu manto negro, deixando revelar um corpo perfeito, com curvas e linhas maravilhosamente traçadas. Os cabelos longos, tão negros quanto seu manto, escorregavam por suas costas, como mãos maternas que faziam um carinho no filho mais querido. A pele fortemente albina, podendo ser comparada às nuvens de um dia ameno, mas como se guardasse uma forte tempestade em sua constante permanência. Olhos profundos e tristes. Duros e irredutíveis. Frios. Mas, igualmente tristes e solitários, fortemente negros, ousados, medonhos. Uma boca mínima, escondida em sua face branca, mas tão viva quanto os mesmos olhos que foram a pouco descritos. Mãos de dedos finos e longos, quase frágeis. Os dedos dançavam entre suas coxas, levemente inquietos e ousados, discretos e brincalhões, moralmente imorais.

A Morte estava nua. Esperava uma reação de Euclides e tinha medo que a "reação" acontecesse. A Morte estava com medo, mas estava enormemente feliz.

Euclides, mesmo de olhos fechados, notara a presença de sua invasora. A imagem de Dona Morte despida voltava em sua mente. A mesma imagem que ele desejou no navio negreiro à cerca de quinhentos anos. A mesma bela imagem que ele esperou em sua liberdade. E a mesma bela e marcante imagem que ele contemplou na riqueza. A mesma bela, marcante e confortante imagem que o consolou na pobreza. E agora, a mesma bela, marcante, confortante e obscura imagem que o usa, como sempre o usou em toda sua vida.

Dona Morte deita-se ao lado de Euclides, este não se move, continua irredutível. Ela observa o teto com manchas de umidade, estuda por algum tempo as paredes mofadas, escuta os sons urbanos que entram envergonhados pela janela, sente o perfume de eucalipto deixado por ela mesma, o perfume se mistura ao do suor de Euclides, que começa a transpirar em excesso.

Dona Morte se levanta e fecha a janela. Os sons externos cessam. A batida do coração de Euclides é ouvida carinhosamente por Dona Morte. Sua respiração domina o ambiente quase morto do quarto, como um guia, unindo todas as características ambientais apresentadas para que realizem uma só ação: o prazer do maior dos infortúnios.

Euclides esquece tudo o que acontece em sua volta. Este mesmo ritual repete-se anualmente, e neste momento ele prefere desconsidera-lo. Euclides sempre fora uma pessoa que não se arrepende do que faz, porém, neste momento ele se arrepende daquilo que sempre considerou um direito humano: a capacidade de desejar.

Deitada ao lado de Euclides; com este permanecendo de costas; Dona Morte deixa que seus dedos brinquem sobre a enorme barriga de Euclides, sentindo docemente seu suor, os pelos, o forte calor que irradia do negro corpo dele, e a calma do mesmo. Enquanto suas mortas pálpebras vibram constantemente, mostrando o nervosismo imperceptível de Dona Morte. Ela vai aos poucos redescobrindo Euclides. Com a ponta de seus dedos, passeia pelo tórax e abdômen, pelo rosto, fazendo cócegas nas suas mãos com a barba mal feita de Euclides. Dona Morte vai acostumando seus dedos à superfície viva que lhe é apresentada, ou que ela violenta (?). Afinal, nenhuma das doces carícias oferecidas pela "amante" são realmente desejadas, mas somente aceitas.

Após o perfeito reconhecimento dos dedos de Dona Morte junto ao corpo de Euclides, ela se sente mais à vontade para uma melhor "vistoria". Move o corpulento Euclides para o outro lado, deixando-o com a visão fixada em seu rosto. Os olhos de Euclides estão fechados. Ela o deixa de bruços. Beija levemente a testa de Euclides, sorvendo o suor que escorre pelas bordas de sua fronte. O gosto salgado traz-lhe um prazer imenso, fazendo com que seus beijos se tornem cada vez mais intensos e demorados. Por longos minutos esquece que deve beijar e começa a lamber a face de Euclides, de forma instintiva e sedenta, querendo sentir cada vez mais o sabor tão maravilhoso que o suor proporciona à sua saliva. Uma sede imensa cresce nos lábios e língua de Dona Morte, sendo assim, ela desiste do rosto e parte para o resto do corpo. Desesperadamente Dona Morte suga o suor do pescoço, peito, ombros, braços, barriga, dedos; beija fortemente os dedos e as pontas dos dedos de Euclides, é atraída pela umidade nas palmas das mãos, e pelo forte odor das virilhas suadas.

A saliva fria de Dona Morte causa pequenos calafrios espasmódicos em Euclides. O fato não surpreende Dona Morte que continua seu obsceno ato. A esta altura Euclides já está com os olhos abertos, mas evitando ao máximo olhar para sua amante. Dona Morte começa a realizar ações mais bruscas, como apertar fortemente seu corpo nu ao de Euclides, rolando pelo mesmo, como se estivesse em um colchão. Tira o calção de Euclides com os pés. Segura e aperta o novo membro que ascende após a retirada da roupa. Dona Morte tateia o músculo a pouco encontrado, e, em curtos intervalos, aperta-o fortemente, fazendo-o crescer cada vez mais. Euclides (de dor e repulsa) fura seu colchão com os dedos a cada ousadia de Dona Morte, sentindo um asco maior quando esta enfia seu dedo na boca dele.

Dona Morte torna-se mais violenta. Começa a morder os ombros de Euclides e a rasgar a pele dos braços. Com intensidade coloca Euclides sentado na cama e pula em seu colo. Solta um gemido longo seguido de um grito fino. Euclides morde fortemente os lábios inferiores, mas mantém os olhos fechados. Se acontecesse de alguém vê-lo neste estado naquele momento era possível que o espectador não o considerasse humano, pois não demonstrava sentir dor ou desgosto à partir de então. Diferentemente do que realmente estava acontecendo com sua mente e seu corpo, que aguentavam corajosamente os relampejos do amor de Dona Morte.

Esta por sua vez foi-se tornando mais sanguinária. A expressão de mórbida juventude que tinha ao chegar na casa desapareceu. Assemelhava-se a algum tipo de animal doentio e perdido, como os lobos caso deixem sua matilha. Não era mais fria, era assustadora. A saliva escorria pela boca e caia no corpo suado, que deixava a paz de seu tom de pele branca e começava a acentuar um tom avermelhado. Deixou os gemidos e sussurros por gritos de agonia e dor. "Dor"? A Morte sente dor? Euclides talvez soubesse a resposta; ou não.

O perfume de eucalipto desapareceu. O que havia era um tipo de mormaço, forte e aterrador. Como se todo o ambiente evaporasse naquele momento. Um calor desesperador surgiu de repente e rapidamente foi aumentado. Dona Morte berrava e rasgava o que estivesse próximo a suas unhas. Cavalgava com Euclides como se estivesse em cima de um touro bravo. Balança todo o corpo. Em momentos mais prazerosos jogava os braços batendo-os em Euclides.

A cama quebrou-se. Não se ouvia mais o rádio ou outro ruído externo. O colchão começava a queimar tão logo que o calor aumentava. Euclides chorava. Nunca havia chorado em todas as vezes em que a quilo aconteceu, mas cedeu a própria dor. Chorava de dor e arrependimento. Chorava por não ter encontrado o amor. Chorava por tê-lo perdido. Chorava pela vida. Chorava pela vida existir. Chorava por ter querido ser algo mais. Chorava por chorar. E chorava por todas as razões boas e ruins que tinha. Sentia dor. Sentia muita dor. Estava arrependido. Trocou a morte pelo prazer eterno. Trocou por aquilo que sempre considerou amor. Só restou dor deste amor. Nada mais.

Súbito; em uma daquelas ideias que surgem em horas desesperadoras ou quando algo proporciona uma chance de se arrepender; Euclides percebeu que o calor aumentava a cada gozo de Dona Morte. E com o calor a fumaça que saia do colchão queimado. Decidiu arriscar um último golpe. Abraçou fortemente Dona Morte, levantou-se e foi aumentando o prazer dela. O colchão virou cinzas. Sensibilizou faceiramente sua amante. O fogo subia pelas paredes do quarto. Deixou-se levar pelo prazer da parceira. A casa também aquecia-se com as enormes labaredas. Segurando sua repulsa por tal entidade, proporcionou à ela todo o amor e experiência na ação.

As pessoas na rua paravam para ver o que estava acontecendo. O corpo de bombeiros foi chamado. Os policiais da proximidade foram alertados. O pequeno mercantil na parte inferior do apartamento estava também sendo queimado. O fogo surgia em grandes focos nas janelas e pela escada. O transito parou para observar. Entre os espectadores pequenas especulações: "...é o homem doido...", "...dizem que ele já tentou se matar duas vezes...", "...sempre soube que mais cedo ou mais tarde algo assim aconteceria...".

Euclides, concentrado em destruir logo tudo aquilo, começou a queimar também. Não sentiu nada até o fogo alcançar seus joelhos. Toda a casa estava em cinzas. Os bombeiros tentavam conter o fogo do lado de fora, evitando que este atinja os outros apartamentos. Dona Morte não percebia o que acontecia, mantinha-se alheia a tudo. Euclides aproveitou o estado "dormente" de sua companheira e intensificou sua ação esquecendo-se do fogo que tomava suas costas e cabelos.

Em menos de dez minutos o fogo cobriu todo o apartamento, não deixando nenhum vestígio, nem móveis, nem paredes, nem teto, nem corpos, nem nada. Os bombeiros demoraram cerca de três horas para apagar todo o fogo. Mais três para descobrir que ele partiu do quarto, dado o estado tão grande de destruição. E cerca de quinze minutos para descobrirem a pequena rosa negra no chão do que era o quarto. E em menos de dois segundos a pequena rosa também transformou-se um cinzas. Um vento frio tomou toda a cidade durante aquela noite.

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