A Garganta da Serpente
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Pra que a Alegria Vire Moda

(Aurora Miranda Leão)

A Máquina, filme de estréia de João Falcão, teve sua primeira exibição em outubro passado. Acompanhei sua passagem pelo FestRio. Os comentários eram todos muito favoráveis mas confesso ter ficado completamente embasbacada com a beleza impactante do filme de estréia de João. O filme já começa muito belo, vibrante, com vigorosa interpretação de Gustavo Falcão dominando a tela e pouco a pouco tomando o coração da platéia. Tive o enorme prazer de conhecer o filme em sessão especial em Goiânia, durante a primeira edição do Festival de Cinema promovido pela Prefeitura Municipal com curadoria de Débora Torres. E meu prazer foi maior porque assisti ao filme ao lado do protagonista, Gustavo Falcão, ator a quem só conhecia de nome e por fotos de jornal. Com ele, ri, me emocionei e me envaideci por sabê-lo nordestino como eu, danado de bom, cujo berço interpretativo foi construído no Teatro, enigma encantador e fascinante para todos nós, atores. E aí está a explicação: por ter sido gerado na fonte mais pura da Interpretação, Gustavo consegue alcançar com maestria invejável o patamar interpretativo arrebatador de toda a imensa platéia presente ao Cine Lumière naquela quarta-feira goiana de muita vibração e alegria contagiantes. Olhando Gustavo, quase me belisquei sem acreditar: estava sentada ao lado de um exemplo de simplicidade e despreendimento, a esconder um ator de talento excepcional.

João Falcão teve seu talento revelado através da Tv Globo. Roteirista e diretor, egresso do teatro, João é também o responsável pela mudança para o Rio de um grupo de atores nordestinos, todos ótimos: Lázaro Ramos, Wagner Moura, Wladimir Brichta, Gustavo Falcão, Aramis Trindade e Zéu Britto. Na capital carioca, por cinco anos, eles apresentaram o espetáculo A Máquina, nascido do romance homônimo de Adriana Falcão, mulher de João, e lá a tevê os descobriu. Em pouco tempo, começaram a fazer participações em programas globais e a empatia com o público foi quase imediata. Então, em boa hora, este danado João resolveu transpor A Máquina para o cinema e o filme torna-se ainda mais valoroso por tratar-se do primeiro. João Falcão conseguiu realizar um dos mais significativos e belos filmes brasileiros dos últimos anos, filme para atravessar gerações arrebatando platéias, com louvor. A MÁQUINA JUSTIFICA QUALQUER IDA AO CINEMA. O filme deverá ser um dos grandes êxitos do cinema brasileiro este ano. Além de super bem produzido e com uma direção hiper competente, faz enorme bem à alma assisti-lo, leve, pra cima, sensível, irônico, crítico, reflexivo, imperdível. Sem dúvida, um dos mais belos filmes já feitos no país.

Gustavo Falcão faz o mesmo papel de Paulo Autran, igualmente fabuloso, separados por um intervalo de 50 anos. Os dois contracenam em pé de igualdade. Um luxo sem tamanho reunir dois atores de gerações tão diferentes e de talentos tão semelhantes. Sem dúvida, este dado é essencial para o ESPETÁCULO fílmico de João Falcão. Difícil comentar este magnífico A Máquina tendo-o visto apenas uma vez, sem medo de estar esquecendo algum detalhe. Mas às vezes os riscos são necessários. A história de A Máquina é ambientada numa pequena cidadezinha do sertão, a pacata Nordestina, onde vivem os apaixonados Antônio e Karina. Acontece de ela estar cansada do marasmo e do dia-a-dia sempre igual. E Antônio resolve sair de lá em busca de novos rumos para trazer as notícias do mundo pra ela, a fim de que a amada não se perca dele, não o largue nunca. O tempo inteiro, o olho gruda na tela e as emoções vão grudando na alma, sucedendo-se sem perder em qualidade nem gradação. Supimpa!

Sutil, inteligente, vibrante, perspicaz, audacioso e intensamente belo este filme de João Falcão. O diretor constrói um imenso leque de possibilidades cinematográficas, descortinando ao longo da história um mundo novo e completamente impactante para o personagem Antônio, cujo ápice é a participação dele num programa televisivo, onde concede entrevista a um apresentador cuja única preocupação são os números do Ibope. Este tem em Wagner Moura o intérprete sempre iluminado e a cena dá o mote para Gustavo exibir todo seu enorme potencial interpretativo. Gustavo compõe de forma visceral o Antônio, sobretudo no momento de maior exigência, o Monólogo da Audiência ou o Discurso da Tevê, acme da maestria do texto de Adriana, da direção de João e da capacidade interpretativa singular de Gustavo Falcão. Um banho de talentos pernambucanos unidos numa exponencial realização cinematográfica, filme com capacidade para ser uma das grandes bilheterias deste 2006 de início tão promissor para a SétimArte Brasileira. A Máquina é, antes de tudo, isto: a exacerbação da criatividade artística em todos os níveis. A começar pela grandiloqüente Dramaturgia de Adriana Falcão. Por conta das filigranas da criação dela, inspiradora da direção acurada de João, o elenco tem nas mãos o sumo da argila preciosa a lapidar, apropria-se do texto tornando-se dele co-autor e atua como confidente de João. Aí não tem outro caminho: é bola na rede o tempo todo. Humor, alegria, reflexão existencial, paixão, crítica social, tem de tudo em A Máquina. É possível rir, chorar, se emocionar de todas as formas, na mesma proporção. Um achado fabuloso o nome do conjunto responsável pelo lindo Baile de Máscaras em Nordestina. É o The Sconhecidos... Essa cena, aliás, é Qualquer coisa além da Beleza, como diria meu adorável Vinícius de Moraes. Há também frases onde a simplicidade e o profundo dão as mãos em invejável sintonia: “E não tinha medo de fugir do perigo...”; “ O amor zomba dos anos...”; "Não se avexe não que tudo pode acontecer, inclusive nada”... E o “dueto” de Gustavo e Wagner Moura (outro excepcional ator da nova geração) já seriam suficientes para estarmos diante de um grande filme. Pra nós, amantes e fazedores teatreiros, é uma enorme satisfação constatar: todos os atores são crias do Teatro. E ouso afirmar: por isso mesmo, estão todos magnânimos, até quando nada dizem, como o personagem de Lázaro Ramos. À mesa com o Antônio envelhecido (Paulo Autran), Wladimir Brichta, Zéu Britto, Aramis Trindade, todos enfim, encharcam a tela de verdade cênica. Desnecessário apontar melhores. A cena é grandiosa porque todos estão harmoniosamente exímios nos difíceis mistérios da criação stanislaviskiana. Quem nutriu-se dessa fonte, utiliza-se dela mesmo quando não sabe disso. Contagiada a platéia, confirma-se a sensibilidade aflorada por esse tênue condão emocional com que se bordam as teias da interpretação dos grandes Atores. Destaque também para a ótima participação de Prazeres, atriz pernambucana convidada a viver Prazeres na tela.

Indagações sobre o tempo e as alterações por ele provocadas na vida de cada um, refinada e incisiva crítica à sociedade midiática na qual vivemos todos, muitos agindo como amorfas marionetes, uns mais outros menos teleguiados, e um clima contagiante de festa e alegria sem pudor são os grandes trunfos de A Máquina. A crítica torna-se mais contundente e inconteste na medida em que João é um dos mais festejados diretores da emissora de tevê de maior audiência e em tudo que faz deixa a marca da criatividade, da ousadia, da riqueza de caminhos artísticos. A Alegria tem um layout de festa permanente e o sol colorido do Nordeste espraia vida e sensualidade na tela, convida a festejar sem parar e tudo funciona além do combinado, como se pudéssemos deter o tempo e reprisar os melhores momentos, temperando tudo com gostinho de brincadeira popular encenada nos enormes quintais da infância sem violência de outrora, capaz de nos transportar até o tempo cantado por Chico quando ele brincava de cowboy, rei, bedel e juiz e onde “a gente era obrigado a ser feliz”.

Mas A Máquina é muito mais que isso. É uma prova inconteste de que se pode ser absolutamente popular com extremo refinamento e poder de reflexão crítica. Um show de João Falcão e de toda a equipe, a quem aplaudo com efusão.

A Máquina
Direção: João Falcão
Duração: 93 minutos
Ano: 2005

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