A Garganta da Serpente
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Magia no espelho

(Adhemar Molon)

Josué, menino de dez anos, estudava e trabalhava numa tinturaria. Tal emprego fora conseguido por sua mãe que não permitia que seus filhos ficassem vadiando. Por isso, assim que saia da escola, corria pra casa para se alimentar e lá se ia para seu importante emprego de entregador de roupas que eram lavadas e passadas pelo Zé tintureiro. Quando fazia suas entregas, por ser ainda muito pequeno, precisava elevar a mão ao alto acima da cabeça para que o terno não arrastasse no chão. Sendo um pouco longe a entrega, precisava trocar de mãos a todo instante para evitar o cansaço.Não havendo entregas a fazer, ficava a cuidar de um bebê que ainda engatinhava, cuja criança era filha do Zé Tintureiro e de sua esposa Conceição, um casal de mineiros residentes em São Paulo. O Zé Tintureiro lavava os ternos dos fregueses no quintal de uma padaria e confeitaria situada bem em frente à sua tinturaria. Nesse quintal havia um tanque dos antigos e ali Zé Tintureiro ficava horas esfregando roupas com todo cuidado para não danificá-la. Às vezes se utilizava de algumas gotas de ácido misturada na água.

Zé Tintureiro gostava muito de sua profissão. Cuidada das roupas dos fregueses como se suas fossem. Vez por outra Josué ficava olhando o homem no seu trabalho tanto na lavação de roupa quanto no seu passar a ferro aquecido a carvão. Tudo ali era feito à moda antiga pois se estava nos anos de 1943/44, por aí, quando ainda acontecia a segunda guerra mundial.

O casal Zé Tintureiro e seu bebê residiam num porão de quatro cômodos. Dois deles de maior altura e dois muito baixinhos servindo apenas para guardar objetos de pouco uso e também seus vidros de ácidos utilizados na lavagem de roupa. Um dos cômodos servia como quarto para o casal e seu filho, o menino Ivo. Outro, logo na entrada, era seu estabelecimento comercial, seu local de passar roupa. Certo dia, enquanto brincava com o bebê naquele cômodo mais baixo, Josué acabou por quebrar um dos vidros de ácido que se espalhou provocando queimadura numa das mãos da criança. Foi um desespero total ! Um tremendo corre-corre ! A criança foi levada ao hospital ! A cicatriz da queimadura ficou como triste lembrança...

Quando incumbido de buscar qualquer coisa na padaria, Josué ficava namorando a vitrina de doces babando de tanta vontade. Seu salário, 10 mil réis, talvez o equivalente aos dez reais de agora, somente lhe permitia se fartar daqueles doces no dia do seu pagamento. Isso até que descobriu um cofrinho no formato de casa existente no quarto dos patrões. Era uma casinha linda, com telhado de pequeninas telhas pintadas na cor natural da cerâmica e cujas paredes pareciam ser de tijolos à vista. Numa das águas do telhado havia a pequena abertura para entrada de moedas. O pequeno cofre estava quase abarrotado e por isso mesmo um tanto pesado. Quando dona Conceição se ausentava com seu bebê e seu marido saia por qualquer motivo, principalmente pra lavar roupa no quintal do padeiro, Josué, não resistindo a tentação, danava a chacoalhar a dita casinha de cabeça pra baixo na esperança de que caísse dali alguma moeda. O diacho era que; para colocar moedas o buraco era grande e o dinheiro entrava com muita facilidade, mas, para sair, era um sacrifício. Chacoalha que chacoalha e nada de moedas. Somente aquele barulho denunciador de que estava tentando contra aquela pequenina residência onde se escondiam as verbas do pequenino Ivo, verdadeiro e ainda inconsciente proprietário. Às vezes, enquanto balança aquele tesouro alheio na tentativa de reparti-lo indevidamente consigo, algum freguês chamava pelo Zé Tintureiro lá do ambiente comercial. Josué saia com o rosto avermelhado e olhinhos assustados como que se o tivessem descoberto naquela sua façanha. Informava que seu patrão não estava e tão logo o dito freguês se retirava, lá voltava para a casinha das moedas. Quando via uma moeda meio pensa na beirada do buraco ele se enchia de esperanças. Por vezes pensou em desistir mas a visão da vitrine de doces vinha-lhe reativar as tentações. Sendo um garoto inteligente e muito criativo, logo descobriu uma faquinha de lâmina muito fina que passou a utilizar para tentar assaltar o pequeno cofre. Cutuca e cutuca o pequeno tesouro com a ponta da faca. Equilibra a casinha inúmeras vezes e quando finalmente uma moeda aponta no buraco, com seus dedinhos espertos puxa-a pra fora. Finalmente tem às mãos uma moeda de 300 réis ! Atravessa então a rua rumo a confeitaria e volta vitorioso com uma cocadinha de 200 réis ! A partir de então, sempre que tinha oportunidade, visitava a casinha do tesouro e de lá retirava uma pequena parte! As constantes idas à padaria começaram por despertar a curiosidade do senhor Vieira, o português dono da confeitaria que lhe vendia os doces. É que começaram a aparecer até moedas de dois mil réis e estas eram de prata pura. "Seu" Vieira levou a notícia ao amigo Zé Tintureiro. O tintureiro, todo cheio de suspeita, foi logo verificar o cofrinho de Ivo, seu filho. Na primeira chacoalhada percebeu que a casinha estava quase vazia mas não disse nada a Josué. Porém, quando vinha um freguês e estando Josué por perto para ouvir, conversavam com aparente displicência sobre o sumiço do dinheiro. Josué ruborizava e ficava todo sem jeito. O tintureiro comentava que tinha certeza de que descobriria o culpado... E o culpado tremia...

Conseguindo um bom punhado de moedas, nos dias que se seguiram, seu Zé as foi colocando aos poucos no cofrinho, pesando-o sempre na padaria de Vieira para conferir. Estando sempre certo o peso pode ter certeza de que não mais estava acontecendo furto algum. Josué não se arriscava mais a mexer na casinha do tesouro. Porém seu patrão continuava a lhe despertar os brios.

Zé Tintureiro passou depois a se utilizar uma tática de magos. Sempre que seus clientes perguntavam sobre as sumidas moedas, respondia já ter encontrado a solução para o misterioso caso. Estava somente esperando a vinda de um delegado de polícia que possuía um espelho mágico. Esse espelho, segundo ele, refletiria o rosto do culpado pelo desfalque. Aí o delegado prenderia o criminoso por algum tempo. E todo dia era a mesma cantilena...Josué ficava cada vez mais apavorado... O menino passou a ter aversão por doces. Já não se alimentava nem dormia direito. Não podia contar pra sua mãe o que estava acontecendo por ter certeza de que levaria umas boas palmadas. Queria encontrar uma forma para devolver todo dinheiro furtado mas não se encorajava em admitir sua culpa. Então abandonou o emprego de pajem e entregador de roupas. Naqueles tempos em que crianças de 10 anos eram ingênuas, acreditavam em qualquer coisa, passou a temer o maldito espelho mágico que seria capaz de denunciá-lo...

Zé Tintureiro, era também o Chefe dos Escoteiros. Dera ao menino um uniforme completo incluindo um apito com cordão trançado que Josué adorava. Quando a turma desfilava com sua fanfarra chamava a atenção de todos e ele, Josué, gostava de se exibir com sua farda de escoteiro e de afirmar com reverente continência ao seu chefe o lema dos escoteiros: - "sempre alerta chefe".

Josué tinha convicção de que "pisara na bola"... O tintureiro gostava do menino. Tanto que o procurou para retorna-lo ao trabalho. Mas, Josué, envergonhado de seu inglório feito, não se encorajava mais olhar de frente para "seu" Zé. Nunca mais retornou ao trabalho e nem mesmo passou lá por perto. Abandonou também o escotismo! Sentiu-se por isso muito bem punido embora continuasse a temer os reflexos do denunciador espelhinho mágico...

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